Ditadura x Terrorismo

quarta-feira, 22 setembro, 2010

Desde que a campanha eleitoral começou, percebo um movimento social sendo deturpado.

Aqui, cabe um parêntese: estou na Alemanha, não estou assistindo horário eleitoral e não poderei votar nessa eleição, pois não pude fazer a trasnferência do título no prazo estipulado. Não estou defendendo nenhum candidato, apenas faço algumas observações em relação a como a históira está sendo usada em função desse momento nacional.

Em 64, com o golpe militar, foi instaurada a ditadura. Recentemente, tentaram, inclusive, mudar o termo para “ditabranda”, ainda bem que não conseguiram. Posso dizer, sem muita certeza, que até o movimento do “Diretas já”, entre 83 e 84, e a aprovação da nova Constituição em 88, a ditadura estava presente no país.

Nesse período, poucos foram as pessoas que tiveram coragem e capacidade de enfrentar os militares. Na época, foram entitulados “guerrilheiros”. Muitos foram presos, mortos ou exilados. Dependia muito do “crime” ou da influência que tinham.

O que importa é que foram os únicos que se rebelaram contra uma ditadura. (O resto do povo ou não tinha consciência real do que acontecia, ou não tinha coragem de levantar a voz, ou, simplesmente, era condizente com o processo de “prisão” pelo qual o país passava.) Foram os únicos que lutaram por uma democracia, por uma país de ideias livres. Eles lutaram com as armas que tinham. Afinal, como lutar contra um exército inteiro? Seja escrevendo críticas em jornais, músicas para festivais, realizando passeatas e comícios, cometendo “crimes” etc. Era desse jeito que se podia protestar, radical ou não.

Mas as pessoas esquecem – ou nunca aprenderam, que a ditadura também cometeu muitos crimes contra a sociedade: tirando sua liberdade de expressão, prendendo inocentes, torturando, sequestrando e matando gente…

E hoje, estou assitindo a história mudar. Os únicos brasileiros corajosos, pensadores e intelectuais, que tiveram coragem de lutar por um país, estão sendo rotulados de criminosos, terroristas. Porque é conveniente não tratar a história. Porque é conveniente fazer com que uma nação não saiba reconhecer heróis e, por isso, transferem a sua energia para ídolos mau construídos do futebol e da música.

Uma nação sem consciência crítica que transforma pessoas, que ora foram “rebeldes com causa”, inconformados, questionadores, em terroristas. Que escutam uma “verdade” através da mídia que um dia foi financiada pela ditadura e tomam-na como verdade absoluta, tornando-a parte do consciente coletivo brasileiro.

Não me interessa se Dilma, Lula, FHC, Cristovão Buarque, Gabeira, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, José ou Luís. Preso ou exilado, torturado, morto ou desaparecido. O que importa é que, para a história que eles gostariam de ter escrito, eles não são terroristas.

São mais brasileiros do que eu.

“É uma pena que sejam os vencedores a escrever a história.”


Manifestações contra os efeitos da crise

terça-feira, 31 março, 2009

Desde o dia 28 de março que cidadãos, entidades sociais e sindicatos europeus organizam manifestações contra os efeitos da crise financeira no mundo. Com slogans como “Não vamos pagar a vossa crise”, “Put people first” (Coloquem as pessoas em primeiro lugar, em tradução livre), os manifestantes esperam chamar a atenção dos líderes no encontro do G-20 que ocorrerá em Londres no dia 02 de abril, mantendo as manifestações por todo o período.

Em cidades como Londres, Lisboa, Paris e Berlin, as pessoas foram às ruas pacificamente mostrar sua força enquanto maiores prejudicados com a crise, reivindicando soluções mais humanas e de respeito à natureza, indo de encontro às soluções antissociais que os países estão tomando para resolver a crise.

“O G20 e os governos já mostraram que só estão interessados em salvar o sistema, manter os privilégios de uma minoria e socializar os prejuízos gerados pela crie. Face a isso, é preciso uma grande mudança no sistema e exigimos a aplicação imediata das seguintes medidas: abolição dos paraísos fiscais, novas taxas, particularmente sobre transacções financeiras, limitação de salários milionários e a construção de um sistema bancário e financeiro público”, diz Aurélie Trouvé, presidente da ATTAC França.

São essas e outras mudanças que as manifestações populares programadas e realizadas na Europa cobram dos lideres mundiais. Não discordo das palavras ditas pelo presidente Lula quando ele afirmou recentemente “que a crise foi provocada por brancos de olhos azuis”, por uma minoria rica e privilegiada pelo sistema capitalista e que, apesar da crise, continua sendo favorecida pelos governos para salvar um sistema financeiro que não produz e demitindo milhares e milhares de pessoas em todo o mundo, sendo esses últimos os que, realmente, pagam a conta. Contudo, esses mesmos brancos de olhos azuis, não ricos e vítimas das demissões em massa que estão ocorrendo, principalmente na Europa e nos EUA, estão se organizando socialmente para exigir mudanças no sistema – ou mesmo, um novo sistema – para que ele passe a favorecer também aos pobres, trabalhadores e àqueles que não recebem comissões milionárias de grandes empresas.

Esse ponto de vista, a mídia brasileira não divulga. Acessar os principais portais de notícias na categoria “Mundo” ou “Economia” hoje para pegar referências é ler manchetes como “Ministra britânica se arrepende de usar dinheiro público para pagar pornô” e nenhuma referência a essas ações sociais que reivindicam os direitos de trabalhadores do mundo inteiro.

Curioso é saber que o movimento foi discutido no Fórum Social Mundial, ocorrido em Belém/PA em janeiro deste ano, resultando num dia de ação global em resposta a crise financeira e suas consequências para o povo. E esse dia foi o dia 28 de março de 2009. Todavia, eu estava preocupada em apagar as luzes das 20h30 às 21h30 num gesto simbólico contra o aquecimento global que ninguém viu e esqueci-me de sair às ruas para pedir atenção a uma maioria que, diante da crise que avança, é uma minoria desprovida de voz e direitos.

É uma pena que não consigamos nos unir, como lá, para exigir as mudanças necessárias. Porque esse modelo financeiro-capitalista, que agride brancos, negros, vermelhos, amarelos, mestiços, todos não ricos, e a natureza com sua poluição e destruição em massa já morreu e, aposto que, o único ser que a história conhece capaz de ressuscitar mortos não estaria ao lado de quem provocou a crise.

Não podemos pagar essa conta.

Mais detalhes: BBC Brasil