Escrevi no texto “Captador de Recursos: quem é e o que faz” que deveria ser ilícito ganhar comissão sobre o valor arrecadado. Essa afirmação gerou algumas reações que serão discutidas a seguir.
Algumas pessoas me procuram para captação de recursos. Reconheço a importância desse trabalho, bem como dos profissionais da área. Sei que é muito importante ter uma vasta rede de relacionamentos e também sei que isso leva tempo e é preciso muito investimento. Além disso, são anos de experiência acumulada que valem muito.
Não posso deixar de citar um comentário recebido: “Temos que acabar com a idéia de que quem atua no 3º setor é missionário, que não tem contas para pagar e que seu tempo, dedicação e preparo não valem dinheiro. O 3º setor vem com o compromisso de profissionalizar as pessoas que nele atuam para que estas deixem de ser amadoras e aventureiras.” Concordo plenamente. Por isso mesmo, escrevi o texto “Quanto se quer investir para vencer?”.
Mas, recentemente recebi um e-mail que me deixou estarrecida. Convidavam-me a trabalhar com Captação de Recursos e o que fosse captado seria dividido em três partes iguais: uma para o grupo de pessoas que concebeu o projeto, uma para a instituição que estava intermediando o projeto e a outra para o captador. Dividir em partes iguais pode parecer justo, mas não acho justo quando isso fica parecendo um comércio.
Uma coisa é a ONG vender o seu projeto, outra é ela se vender. Como é que se planeja um orçamento baseado nisso? Inflacionando preços? Ampliando e camuflando horas de trabalho? Deixando explícita essa relação no projeto? Como o financiador/patrocinador/doador se sente ao saber que apenas 1/3 do seu dinheiro será efetivamente utilizado para a concretização do projeto SOCIAL? Como se presta contas disso? Até onde isso é válido e ético?
Por isso, não concordo com o comissionamento de captadores de recursos. A seguir, a resposta ao comentário citado: “Eu discordo do comissionamento a partir do momento que observo pessoas despreparadas se proclamando ‘Captadores de Recursos’, em função das oportunidades que as grandes cifras dos projetos criam. Por isso, iniciei falando dessas pessoas. (…) Nesse caso e somente quando eu percebo por parte do Captador seu empenho social e profissional e não meramente ‘oportunista’ é que valorizo o comissionamento. Pois, também sabemos quão carente é o terceiro setor e quão suscetíveis (sic) a falsas promessas ele está.”
Por isso mesmo, não trabalho com captação de recursos. Antes da captação de recursos é necessário que se desenvolva o projeto e o plano de captação, ou muito antes disso, o planejamento estratégico da organização. Sem isso, qualquer ação será em vão, o dinheiro sairá voando num vendaval, as metas não serão cumpridas e o projeto não alcançará o resultado proposto. E com esses processos finalizados, até mesmo a ONG pode fazer a sua captação.
É nisso que acredito: no planejamento e desenvolvimento de ações sustentáveis. Por isso insisto tanto nesses assuntos. Essa é a minha responsabilidade social.
Escrito por Evelyne Leandro